novembro 26, 2005

Desmaios

(para quando for velhinha me lembra de os contar aos meus netos)

Antes de mais é importante referir que eu aviso sempre que vou desmaiar.

- fazer análises, acontece aos melhores, mas esperar por chegar ao café em frente é mais complicado;
- fazer um golpe na mão com 1cm de comprimento, andar histérica pela casa à procura de um penso rápido (um guardanapo era demasiado fácil) e desmaiar na cozinha ao ver a única gota de sangue que o corte deixou sair;
- fazer um furo na orelha, sair da loja, desmaiar e acordar na loja de joelhos em frente a uma ventoinha;
- num concerto que não tinha muita gente, entrar na ambulância de serviço, onde os paramédicos perguntaram com ar gozam se tinha bebido ou fumado alguma coisa. resposta é não;
- million dollar baby, palitos pelo nariz acima da pugilista, dão a volta ao estômago de qualquer pessoa mais sugestionável, a mim deu-me a volta ao sistema nervoso. a senhora que estava ao meu lado ofereceu-me água, que eu prontamente recusei ao mesmo tempo que agarrei a garrafa. Para não falar no susto que preguei à pessoa que estava comigo, que não percebeu que eu "só" tinha desmaiado (foi a única vez que não avisei que ia desmaiar, porque enquanto desmaiava ia pensado como era ridículo desmaiar no cinema e obviamente não me ia acontecer a mim - my mistake).

Monstros...

... São maus, ou simplesmente incompreendidos pela sociedade?
Com seis anitos, os meus filmes preferidos eram "Os caça fantasmas" e "Poltergueist", achava-lhes piada, eram giros. A maldade não é justificável, mas pode ser induzida. O Frankenstein não era mau, mas por ser um humano não convencional, os seres humanos que se consideravam normais tinham medo dele, por isso o viam como monstro. Os fantasmas só são maus, quando em vida alguém lhes fez mal. Os monstros defendem-se da maldade que lhes é dirigida, também são humanos.

Acho que é a arrogância humana que cria os monstros, eles não existem até que alguém tenha medo do desconhecido.

novembro 17, 2005

Arséne Lupin

Há filmes que sabem bem ser vistos sozinhos, mas há outros que pedem companhia. Arséne Lupin é um desses filmes. É um filme que pede diálogo, quando se sai da sala, há mil e uma coisa para comentar sobre ele.

O actor principal não foi a melhor escolha, mas percebo porque a fizeram. A realização está perfeita, notasse que não é um filme de Hollywood (acho que não teria gostado tanto dele se fosse). Tem acção, tem comédia, tem intriga, tem romance, mas não é aquela coisa desmedida, que puxa ao exagero que os americanos tanto adoram num filme deste género. Os cenários e os adereços estão bem trabalhados, reconstroem uma época e no entanto mantêm a fantasia. O argumento tem voltas e reviravoltas que nos fazem ficar presos ao filme. O final é um bocado extenso, poderia passar sem os últimos 10 minutos, mas é um final perfeito, pouco comum. Fiquei com a sensação que houve coisas que ficaram por explorar, sem que isso me fizesse sentir que estava mal construído, apenas teria de ser um filme de 3 horas e não duas.

Gostei.

novembro 11, 2005

Habana Blues vs O Fiel Jardineiro

Mais do que uma bonita história de amor, ou do que uma boa teoria da conspiração, "O Fiel Jardineiro" puxou por mim pela realidade. É desconcertante entrar numa sala de cinema, olhar para a tela e ver o meu mundo, um mundo feio, mau e injusto. Sentir que aquelas imagens nao são o produto de uma fábrica de sonhos, mas sim um reflexo do que se passa no mundo.
Angustia-me pensar que fora do meu mundo há gente que sofre por maldade de terceiros. Gosto de acreditar que o mundo é um bom lugar, mas é triste quando penso que por vontade de uns, outros têm de viver infelizes.
Aquela parece-me uma gente pacata que não dá importância à civilização, prefere o seu mundo simples, mas a civilização teima em invadi-los. Porque é que temos sempre a necessidade de impor aos outros aquilo que nós consideramos Bom? O que me faz feliz não é o que faz o outro feliz, então porque tenho de o impor?
Dá-me um nó no estômago sempre que penso que "o necessário" por vezes é negado porque alguém nao têm o plano de saúde certo, ou porque não fez um seguro, ou porque preencheu o formulário errado. Nestas alturas acho que sair de um comércio de troca directa foi o maior erro do Homem.
Ainda que num mundo livre estas pessoas estão presas à vontade de outros.

Por outro lado, Habana Blues mostra a luta por um sonho de gente simples, que pouco tem, mas num mundo que, apesar de fechado, é livre. Neste filme existem escolhas, caminhos, hipóteses.
Este filme mostra-nos uma Cuba de música "moderna", sonhos de jovens que vivem nos dias de hoje e que querem vencer nos dias de hoje. A beleza do filme está nos valores, naquilo que estamos dispostos a ceder para ser felizes e para que os outros sejam felizes.

Á sua maneira estes dois filmes mostram-nos realidades, uma mais tolerável que outra, mas realidades injustas.

Ao pensar no "Fiel Jardineiro" apercebo-me que é mais fácil acreditar nos filmes que mostram uma humanidade má do que nos filmes com histórias bonitas e romances de contos de fada. É mais fácil e credível retratar uma realidade cruél do que uma realidade feliz.